Biografia

No país das cantoras, não basta cantar bem. Para voar acima da concorrência, é preciso ter também uma linda voz. De preferência, soprano ou mezzo-soprano, com técnica bem trabalhada no estudo do canto popular e – por que não? - do lírico também. Ajuda bastante enunciar claramente os versos das músicas, na tradição suave e límpida do brasileiro, na medida para acariciar tímpanos exigentes, acostumados às grandes damas, divas e musas de outras décadas. Dispensar o Pro Tools no estúdio e só semitonar ao vivo por acidente ou em caso de extrema necessidade interpretativa também é desejável. Mas tudo isso acaba sendo apenas o ponto de partida; afinal, a briga é duríssima. Para se destacar na superpovoada pátria das cantoras, é preciso muito mais... E a soprano carioca Monique Kessous tem esse muito mais. Aos 26 anos, ela é dona da própria voz, compositora sensível e criadora de belas melodias.

Chega a este segundo álbum autoral já com um bem definido universo de canções e características singulares (como o gosto por compassos compostos), revelando um olhar feminino com ânsia de encantar ou – não duvide - conquistar o mundo. O discurso romântico de algumas letras sinaliza para a candura de outros tempos, mas também há arrebatamentos sintonizados com os embates dos relacionamentos contemporâneos. A musicalidade é outro de seus diferenciais em relação à maioria das intérpretes. Apesar de não gostar do rótulo multi-instrumentista, Monique domina violão, guitarra e piano, se garante ao vivo tocando um cajón (instrumento de percussão de origem peruana, difundido mundialmente a partir do flamenco) e, com saudável espírito exploratório, vai metendo a cara sem medo em outros “brinquedos”. Pode conferir na ficha técnica do disco: além de violão, guitarra e cajón, acumula créditos por kalimba, cavaquinho, “peixinho e pratos” (percussão)... “Eu levei mil coisas pro estúdio para experimentar. Kalimba, por exemplo, eu nunca tinha tocado antes. Foi mais na base do ‘vamos brincar de música’...”, conta a cantora. Esse gosto pela aventura e pela criação a partir do improviso foram nortes importantes na gestação do disco. Admiradora dos brainstorms usados como método de trabalho pelos Tribalistas, foi nessa base que ela compôs, junto com o irmão e principal parceiro, Denny Kessous, e a prima Fernanda Shcolnik, a graciosa valsa “Noite Sem Luar”. Na gravação, o bandolim de David Morais e o violão de sete cordas de Nando Duarte remetem a saraus “de um velho tempo que pra mim não passou”, a voz de Monique como que suspensa pelo canto de Paulinho Moska, em excelente participação. A faixa com o autor de “A Seta E O Alvo” é um dos agradáveis desvios que enriquecem o disco, arranjado coletivamente pelos músicos, já em estúdio. Ao longo das doze faixas, prevalece o bom gosto pop do produtor Rodrigo Vidal. A serviço de referências sofisticadas, sem compromisso com supostas “raízes brasileiras” ou tolos “resgates”. A bateria de Cesinha, o baixo de Dunga e a guitarra de Fernando Caneca estão na maioria das faixas, e o bandolim de David Moraes (que também toca guitarra em “Coração”) é marcante em quatro delas. O maestro Eduardo Souto Neto escreveu o arranjo de cordas para a candidata a hit “Vem” (de Monique e Denny), definida na letra como “essa canção que me põe para fora”, brevê para o belo vocalise do refrão. Monique, porém, já voa a partir da épica faixa de abertura, “Coração”, com as guitarras de David Moraes e os talking drums usados pelo percussionista Marco Lobo trazendo referências africanas e um sabor daquilo que alguns conhecem como world music. Letra e melodia são quase uma carta de intenções: “Quando a canção for de tom em tom/ Um movimento assim/ Quando o amor for de mão em mão/ Serei bem mais feliz”. Criada na zona sul do Rio, em família musical - “o ‘Parabéns Pra Você’ lá de casa é afinadinho” -, Monique se emociona ainda hoje ao descrever o momento em que a vocação para o canto se impôs na sua vida. “Com 9 anos, eu ia participar de um coro com os colegas da escola, mas a professora me ‘pescou’ e chamou para cantar lá na frente. Era ‘Exodus’, em iídiche (idioma germânico-hebraico). Na frente de umas mil pessoas, foi muito emocionante! Naquele dia eu decidi.” O pai, guitarrista, a influenciou desde cedo tocando música judaica e rock (principalmente Beatles). A mãe lhe passou o gosto por Rita Lee, Barbra Streisand e outras divas americanas. Com 10, 11 anos, Monique tentou aprender violão, mas a mão pequenininha tornava difícil fazer a danada da pestana. Foi em frente incentivada pelo irmão, “na raça”. Dos saraus domésticos com ele e o pai (guitarrista e beatlemaníaco) partiu para estudar canto popular, com Cris Delano – mais tarde avançaria também pelo lírico. Quando a mãe lhe ofereceu “festa ou viagem?” como presente de 15 anos, Monique pediu outra coisa: um show. Que foi devidamente produzido e apresentado no Teatro Ipanema, com direito à menina cantando “Retrato em Branco e Preto”. Monique estudou percepção musical e harmonia, enveredou pelo jazz nas aulas de piano. Mas, livre de preconceitos, aos 17 anos, passou a atacar de vocalista numa banda judaica, animando casamentos, bar-mitzvas e festinhas com os sucessos suspeitos de sempre. “De peruca e tudo, aquelas loucuras”, descreve, divertida com a memória. Ao pop e rock que escutava em casa, com os pais, foi acrescentando um interesse cada vez maior por música brasileira. Marisa Monte, Caetano Veloso e Djavan, paixões de adolescência, abriram o caminho para o encantamento por Gal Costa, Elis Regina, Baby Consuelo, Novos Baianos, Doces Bárbaros e Mutantes. Até 2008, junto com Denny e o amigo João Arruda na guitarra, Monique integrou o grupo Entretantos, com repertório recheado de Lenine, João Bosco e Djavan. A presença cênica, ela aperfeiçoou também a partir de um trabalho de direção para o palco com o coreógrafo Flavio Salles. Sem deixar de ser fiel à sua personalidade, Monique foi atrás de referências de Carmen Miranda, Elza Soares, Elis Regina e outras gigantes da música brasileira. Aos 20 anos, foi chamada por Roberto Menescal para gravar um disco com repertório dos Beatles em arranjos de bossa nova. Mas o primeiro álbum, pra valer, foi Com Essa Cor, lançado em 2008 e trazendo 10 faixas autorais (uma delas, em parceria com Menescal). A canção-título foi pinçada para a trilha da novela Ciranda de Pedra e a toada “Pitangueira” (da própria Monique, incluída agora neste segundo álbum também, como faixa-bônus) fez parte da banda sonora de Paraíso. A partir da boa repercussão do trabalho de estreia, veio o convite para gravar este álbum, Monique Kessous (Sony Music/Day1). Não houve problema para montar repertório: ela já estava com uma fornada de inéditas prontinha. Só duas regravações entraram no disco – e mais por critério emocional do que como referência de prestígio. “Sonhos”, de Peninha, foi escolhida porque já fazia parte do repertório ao vivo. O arranjo de Eduardo Souto Neto, com violoncelo e acordeão, transporta o clássico do pop nacional para ares portenhos, em influência assumida do Bajofondo Tango Club. Já “Bloco do Prazer”, frevo lançado por Nara Leão e que fez muito sucesso na voz de Gal, é reinventado em slow motion – apenas bandolim e baixo, com a voz de Monique valorizando os versos libertários do cearense Fausto Nilo (parceiro de Moraes Moreira na canção). “Eu queria fazer uma música falando exatamente aquilo, mas achava que frevo não se encaixaria no disco. Aí peguei o baixo e saí cantando em andamento lento, gravei no iPod e o Rodrigo amou.” As releituras são charmes adicionais em um lançamento que tem tudo para ficar em catálogo por muito tempo. Monique Kessous é uma grande revelação do país das cantoras não só pela voz. Também pelo talento como compositora. E, em que pesem os critérios técnicos e musicais, ela tem tudo para ganhar o Brasil a partir da emoção. Sua confessional “Calma Aí”, apoiada no piano de Sacha Ambak e no cello de Jaques Morelenbaum, pode ser devastadora feito uma Dolores Duran de boa cepa quando a melodia belíssima suspende os versos “meu amor, foi tanto amor/ que eu quis que fosse eterno até morrer/ mas sei que foi enquanto em mim durou”. E, claro, tem a canção escolhida como cartão de visitas, o single, “Frio”, pop perfeito com ecos balcânicos e rimas no infinitivo, o violão de aço e a sitar de Denny Kessous somados ao bandolim de David, o aço das cordas do violão de Fernando Caneca e o órgão Hammond de Maycon Ananias para construir o mais improvável dos hit certeiros. “Se eu te amo e sei que não tem razão/ Eu ainda quero ser seu”, canta Monique, antes de arrematar com mais um vocal de arrepiar. No texto do encarte, após os agradecimentos, ela proclama: “Sou o que estou. De resto, nada sei”. Não acredite. Sabe tudo, ela.

Pedro Só